luís soares barbosa
a poesia vende pouco
Publicado pela Officium Lectionis, em outubro 2023

Introdução: Ondjaki

Imagem da capa: ilustração de Catarina Soares Barbosa [2023]

[os mortos tombam em cada gota de cacimbo (mia couto)]

trago os meus mortos à flor da pele,
perigosamente inclinados
para dentro.

ocupam em mim todo o silêncio.

regra geral, não basta:
é preciso juntar os negativos,
certos quartos em pranto,
uma frase
suspensa.

os que me morreram aguardam pacientes.

comungamos trivialidades épicas,
suas mãos de outrora dissecam as noites,
cautelosas.

[há que ter desnoções (ondjaki)]

tão meticulosos fomos pra morrer
que nos encolhemos ao longo das escarpas
e passámos a salto o entardecer.

as guerras do peloponeso,
o ciclo dos mercados
e um arquivo de afectos, domesticados já, com etiquetas malva.

a economia não nos ensinou nada,
mas deu-nos vislumbres de inutilidades.

cuidámos ter à mão um vestido discreto,
um casaco de trespasse
ou tronco musculoso,
conforme gaveta onde melhor coubéssemos.
redes de conceitos, anotações, resumos,
a colecção de orgasmos em óxido de metileno,
datas avulsas, lendas de heróis, fezes de gato.

as próprias dúvidas entraram no catálogo,
para sossego dos incautos
e sistemática invenção da nitidez.

pudemos, então, cumprimentarmo-nos
civilizadamente,
frequentar supermercados, bordéis,
a história comparada da literatura.

com o passar dos anos, as mãos cederam,
a contragosto, é certo, e devagar,
enredaram-se em múltiplos desgarres
à medida que a circulação do sangue
inflectiu.
por isso, envelhecemos em socalcos:
aqui o ombro, além os pés.
dois olhos dissonantes,
desnoçoes.

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