Introdução: Ondjaki
Imagem da capa: ilustração de Catarina Soares Barbosa [2023]
trago os meus mortos à flor da pele,
perigosamente inclinados
para dentro.
ocupam em mim todo o silêncio.
regra geral, não basta:
é preciso juntar os negativos,
certos quartos em pranto,
uma frase
suspensa.
os que me morreram aguardam pacientes.
comungamos trivialidades épicas,
suas mãos de outrora dissecam as noites,
cautelosas.
tão meticulosos fomos pra morrer
que nos encolhemos ao longo das escarpas
e passámos a salto o entardecer.
as guerras do peloponeso,
o ciclo dos mercados
e um arquivo de afectos,
domesticados já, com etiquetas malva.
a economia não nos ensinou nada,
mas deu-nos vislumbres de inutilidades.
cuidámos ter à mão um vestido discreto,
um casaco de trespasse
ou tronco musculoso,
conforme gaveta onde melhor coubéssemos.
redes de conceitos, anotações, resumos,
a colecção de orgasmos em óxido de metileno,
datas avulsas, lendas de heróis, fezes de gato.
as próprias dúvidas entraram no catálogo,
para sossego dos incautos
e sistemática invenção da nitidez.
pudemos, então, cumprimentarmo-nos
civilizadamente,
frequentar supermercados, bordéis,
a história comparada da literatura.
com o passar dos anos, as mãos cederam,
a contragosto, é certo, e devagar,
enredaram-se em múltiplos desgarres
à medida que a circulação do sangue
inflectiu.
por isso, envelhecemos em socalcos:
aqui o ombro, além os pés.
dois olhos dissonantes,
desnoçoes.